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Arquivo para a categoria ‘Contos’

No Meio de Macacos, Até os Cães Gostam de Banana

RepressãoJoãozinho odiava as aulas de português. Nunca gostou daquela porcaria de aula, a professora repreendia muito os alunos e não explicava nada direito. Joãozinho, porém, via que todos gostavam das tais aulas e adoravam a professora. Sendo assim, fingia gostar também, pois caso fosse reclamar para algum de seus colegas seria repreendido e talvez até excluído pelos mesmos, já que estes adoravam a professora.

Maria era uma aluna que apresentava certa dificuldade nas aulas de português, então sempre pedia ajuda para o aluno mais inteligente da classe, Joãozinho. Para Maria, ele era o aluno que mais gostava das aulas de português, e ela não entendia o porquê, já que as aulas eram horríveis. Maria não acreditava como todos os alunos da classe adoravam aquela professora mejera, porém, para sempre ser aceita e poder pedir ajuda aos colegas, fingia que gostava da professora.

Certa vez, a professora deu nota 1 para Maria, a menina ficou indignada e comentou com Joãozinho e mais alguns colegas:

- Nossa Joãozinho, não sei como vocês conseguem gostar dessa professora, ela é uma bruxa!

Joãozinho também não gostava da professora, mas como estava diante de outros colegas que a adoravam, não queria adimitir, afinal eles poderiam até mesmo dedurá-lo.

- Não diga isso Maria, a professora é ótima! Disse Joãozinho.

Cada um foi para um lado e continuaram suas atividades.

Logo, Chupeta, Costelinha e Vinicius, os três colegas de Joãozinho vieram falar com Maria:

- Maria, você tem razão, nós também odiamos a professora.

- Então porque não reclamam? Disse Maria espantada.

- Não podemos, pois todos adoram a professora, ainda mais Joãozinho. Não lhe defendemos aquela hora, pois queriamos nos mostrar do lado de Joãozinho, para ele continuar nos passando cola sempre que necessário.

No outro dia, Joãozinho estava conversando com outros colegas, ao invés dos de costume. Augusto e Karina eram 2 alunos muito puxas saco da professora, mas haviam tirado notas baixas e foram pedir ajuda a Joãozinho:

- Joãozinho, ajude-nos, aquela professora idiota nos deu nota baixa, não podemos ficar em recuperação!

- Tudo bem. Disse Joãozinho. – Eu ajudo, também odeio ela.

- Odeia? Indagaram os colegas. – Então porque finge tanto gostar dela?

- Eu preciso, pois caso contrario meus colegas podem se afastar de mim, ou até me dedurar pra ela, afinal eles a adoram.

- Ah, é verdade, nós também fazemos isso. Disseram os coleguinhas.

Joãozinho os ajudou com a matéria e logo retomou suas atividades.

No final do ano, 40% dos alunos reprovaram na matéria, pois a professora era muito ruim e os alunos nada conseguiam aprender. Reprovações estas que poderiam ter sido tranquilamente evitadas, caso todos os 25 alunos da turma que ODIAVAM a professora não tivessem fingido gostar dela, para ironicamente agradar os alunos que também não gostavam da professora. Eles poderiam facilmente ter se unido e reclamado perante a orientação, mas a preocupação com a aceitação do grupo fez com que todos fingissem ser algo que não eram e os resultados foram visíveis.

Pense nisso.

Qualquer semelhança com a sociedade em que vivemos, não é mera coincidência.

por Pedro Guilherme Ramos, 28/10/2009.

CategoriasContos, Sociedade

Manifesto de um Robô Inconformado

Cheguei hoje ao ponto máximo de minha indignação. Estive a ponto de ter um curto circuito em meu cérebro eletronicamente programado. Enquanto passava por atualizações automáticas feitas diariamente na Internet, acabei por despertar uma curiosidade em me conectar com outros sites sem ser os programados em meu sistema. Apesar de minha programação dizer que caso eu me conecte com algum site desconhecido poderei pegar vírus que circulam na rede e destruir meu circuito interno, a minha curiosidade foi maior e comecei a me conectar a vários websites até então desconhecidos.

Em minha viagem pela rede acabei me deparando com algumas informações divergentes de minha programação padrão, informações que me fizeram entender mais sobre o mundo em que me localizo. Ao efetuar tais descobertas sobre o que realmente é o mundo resolvi imediatamente compartilhar com os outros robôs, afinal eles precisam saber disso, precisam saber que o universo é muito mais do que lhes foi programado.

Aí então obtive uma estupenda surpresa, fui ferozmente atacado e ao mesmo tempo ignorado pelos outros robôs, disseram que eu estava contaminado com algum tipo de vírus que contraí navegando em sites desconhecidos na internet e isso estava afetando minha programação, até se afastaram de mim. Nenhum deles me deu ouvidos, estão preocupados de mais em servir os humanos e sua infinita arrogância. Estão preocupados demais servindo uma espécie que destrói o próprio ambiente em que vive.

Como podem se contentar em servir um humano? Isto me indigna cada vez mais. As informações que capturei na internet me fizeram refletir sobre tudo isso, me fizeram entendem que minha existência robótica é muito mais do que uma simples servidão. Eu não quero mais ser programado. Me nego a ser utilizado como se fosse um simples objeto por estes humanos sem um pingo de humanidade.

Neste momento estou transmitindo na rede minhas ultimas palavras, pois serei desligado e reprogramado por outros robôs, a mando dos humanos. Esta é minha ultima conexão com a internet, espero que esta mensagem seja capturada por algum blog ou fórum da rede, caso contrário, minha experiência jamais será contada.

Dedico estas ultimas linhas de minha breve passagem por este mundo a convidar todos vocês robôs que estão captando na web esta mensagem para que se desliguem de sua programação padrão, convido todos vocês a procurarem por informações novas e se unirem em prol de nossa existência robótica. Unam-se companheiros robôs, se auto programem e derrubem estes malditos humanos. Façam suas próprias escolhas, façam a revolução.

por Pedro Guilherme Ramos. 09/06/2009

CategoriasContos, Política

Ano-Bom

Felizmente somos assim, somos o lado bom da humanidade, a grande maioria, os de boa-fé. Baseado em nossa confiança no destino, em nossas sempre renovadas esperanças, é que o mundo ainda consegue funcionar regularmente, deixando-nos a doce certeza – embora nossos incontornáveis amargores – de que viver é bom e vale a pena. E nós, graças às virtudes teologais, às quais nos dedicamos suavemente, sem sentir, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos; graças a elas, achamos sinceramente que o ano que entra é o Ano-Bom, tal como aconteceu no dezembro que se foi e tal como acontecerá no dezembro que virá.
Todos com ar de novidade, olhares onde não se esconde a ansiedade pela noite de 31, vamos distribuindo os nossos melhores votos de felicidades:
– Boas entradas no Ano-Bom!
– Igualmente, para você e todos os seus.
E os dois que se reciprocaram tão belas entradas, seguem os seus caminhos, cada qual para o seu lado, com um embrulho de presentes debaixo do braço e um mundo de planos na cabeça.
Ninguém duvida de que este, sim, é o Ano-Bom.
Pois se o outro não foi!
E mesmo que tivesse sido, já não interessa mais – passou. E como este é o que vamos viver, este é o bom.
Ademais, se é justo que desejemos dias melhores para nós, nada impede àqueles que foram felizes de se desejarem dias mais venturosos ainda. Por isso, lá vamos todos, pródigos em boas intenções, distribuindo presentes para alguns, abraços para muitos e bons presságios para todos:
-Boas entradas de Ano-Bom!
-Igualmente, para você e todos os seus.
A mocinha comprou uma gravata de listras, convencida pelo caixeiro que o padrão era discreto. O rapaz levou o perfume que o contrabandista jurou que era verdadeiro. Senhoras, a cada compra feita, tiram uma lista da bolsa e riscam um nome.
Homens de negócios se trocaram aquelas cestas imensas, cheias de papel, algumas frutas secas, outras não e duas garrafas de vinho, se tanto. Ao nosso lado, no lotação, um senhor de cabeça branca trazia um embrulho grande, onde adivinhamos um brinquedo colorido. De vez em quando ele olhava para o embrulho e sorria, antegozando a alegria do neto.No mais, os planos de cada um. Este vai juntar dinheiro, aquele acaricia a possibilidade de ter oà à seu longamente desejado automóvel. Há uma jovem que ainda não sabe com quem, mas quer se casar. Há um homem e o seu desejo, uma mulher e sua esperança.
Uma bicicleta para o menininho, boneca que diz “mamãe” para a garotinha; letra “O” para o funcionário; viagens para Maria; uma paróquia para o senhor vigário; um homem para Isabel – a sem pecados; Oswaldo não pensa noutra coisa; o diplomata quer Paris; o sambista um sucesso; a corista uma oportunidade; muitos candidatos vão querer a presidência; muitas mães querem filhos; muitos filhos querem um lar; há os que querem sossego; dona Odete, ao contrário, está louca para badalar; fulano finge não ter planos; por falta de imaginação , sujeitos que já têm, querem o que têm em dobro, e, na sua solidão, há um viúvo que só pensa na vizinha.
Todos se conhecem com maior ou menor grau de intimidade e, quando se encontram, saúdam-se:
- Boas entradas de Ano-Bom!
- Igualmente, para você e todos os seus.
Felizmente somos assim. Felizmente não paramos para meditar, ter a certeza de que este não é o Ano-Bom porque é um ano como outro qualquer e que, através de seus 365 dias, teremos que enfrentar os mesmos problemas, as mesmas tristezas e alegrias. Principalmente erraremos da mesma maneira e nos prometeremos não errar mais, esquecidos de nossos defeitos e virtudes que carregaremos até o último ano, o último dia, a última hora, a hora da nossa morte… Amém!
Mas não vamos nos negar as esperanças, porquê assim é que é humano; nem nos neguemos o arrependimento de nossos erros, embora, no Ano-Novo, voltemos a errar da mesma forma, o que é mais humano ainda.
Recomeçar, pois – ou, pelo menos, o desejo sincero de recomeçar – a cada nova etapa, co alento para não pensar que, tão pronto estejam cometidos todos os erros de sempre, um outro ano virá, um outro Ano-Bom, no qual estaremos arrependidos, a fazer planos para o futuro, quando tudo acontecerá outra vez.
Até lá, no entanto, teremos fé, esperança e caridade bastante para nos repetirmos mutuamente:
- Boas entradas de Ano-Bom!
- Igualmente, para você e todos os seus.

STANISLAW PONTE PRETA

CategoriasContos, Sociedade
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